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Contágio: o mundo paranóico e globalizado de Steven Soderbergh


Qual Steven Soderbergh você prefere? O intimista, provocativo e polêmico de “Sexo, Mentiras e Videotape” e “Solaris”? O divertido, mas não menos inteligente da franquia “Onze Homens e um Segredo” e “O Desiformante!”? Ou o da política e socialmente engajado de “Traffic” e “Che”? Seja qual for sua escolha, há muito a apreciar nas obras deste diretor norte-americano. Neste “Contágio”, ele exibe sua terceira e mais premiada faceta, que lhe rendeu nada menos do que o Oscar de direção em 2001. Realista e metódico, Soderbergh exibe um mundo globalizado que vai da calmaria ao caos em poucos dias, em mais uma produção cheia de potencial, o qual é em parte muito bem aproveitado.
A rápida disseminação de um vírus letal, de fácil transmissão, é a investigação quase jornalística do cineasta, que conta com o roteiro de Scott Z. Burns (“O Ultimato Bourne”). Uma norte-americana (Gwyneth Paltrow), que realizou uma rápida viagem para Hong Kong, é aparentemente a paciente número 1. A partir de então, a doença se espalha por diversos países, deixando inúmeros mortos (a taxa de mortalidade chega a quase 30%) e questionamentos nos cientistas, incapazes de identificar a origem do vírus e de desenvolver uma vacina que não apenas cure, mas também devolva a paz para a população mundial.
Em seu estilo documental, de diálogos e interpretações espontâneas, Soderbergh sabe como poucos conectar diferentes partes do planeta e exibir o acelerado crescimento do número de infectados. Suas fontes variam, indo desde programas de televisão e representantes da Organização Mundial de Saúde (OMS) a meros cidadãos em luta pela própria sobrevivência. As multitramas também colaboram para a bem realizada “cobertura” do fato, assim como para evitar uma desagradável sensação de centralismo tão recorrente em produções dos EUA, mesmo que o ponto de vista seja quase sempre de personagens em território americano.
A cada ator (e sobram estrelas competentes) uma função é concedida. Kate Winslet faz às vezes de médica incumbida pelo Governo norte-americano de averiguar a disseminação do vírus e buscar soluções para evitar uma ainda mais desastrosa epidemia. Matt Damon, o principal dos coadjuvantes, é o marido que perde a mulher e o enteado no mesmo dia. Jude Law é o jornalista em busca de polemizar a questão. Lawrence Fishburne representa a Casa Branca, e Marion Cotillard, a OMS. Há espaço ainda para cientistas, editores de jornal, funcionários públicos, esposas e transeuntes.
Não sobram também desdobramentos. O roteiro de Burns sabe como politizar e polemizar sua história, apesar de algumas vezes soar demasiadamente cordial. Acusações sobre a real origem da enfermidade não faltam, assim como confrontos por supostos remédios que curariam a doença. Uma mera inocente ligação é o suficiente para colocar todos os esforços do Governo à prova e fazer um “ídolo” nascer em meio ao desastre. A trama ousa ainda ao deixar o romantismo de lado e matar um dos personagens mais carismáticos e uma inocente criança, fazendo a paranoia ficar ainda maior.
Soderbergh, nesse sentido, se esforça bastante, ressaltando a impossibilidade do homem permanecer imune. Um simples toque na maçaneta é o suficiente para que um enfermo, ainda em período de incubação do vírus, infecte alguém. Os planos do diretor, que alonga a tomada para além do personagem apenas para exibir o objeto “infectado”, contribuem para dar uma maior noção da facilidade em ser o próximo da lista de doentes e, possivelmente, de mortos.
No entanto, Soderbergh parece pouco criativo e frio em sua missão de provocar medo em todo o mundo. São fatos de mais e emoção de menos. O grande número de tramas parece prejudicar a profundidade da história e impossibilita a afeição da audiência com qualquer desses núcleos. Até que Matt Damon consegue alguns minutos de sensibilidade. Mas nada que a desastrosa sequência final, em um flashback absolutamente desnecessário, dissolva em segundos. Com potencial gigantesco, “Contágio” cumpre sua função jornalística, quando poderia ser mais um impressionante filme com a assinatura de Soderbergh.
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Darlano Dídimo é crítico do CCR desde 2009. Graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é adorador da arte cinematográfica desde a infância, mas só mais tarde veio a entender a grandiosidade que é o cinema

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